Dias sombrios: controle do Taleban no Afeganistão já ameaça mulheres

A volta do Taleban ao poder no Afeganistão – com a tomada de Cabul, no domingo, 150, sendo o golpe final de uma campanha militar fulminante – já alterou o modo de vida do povo afegão, especialmente das mulheres, que sentem com mais intensidade a realidade sombria que muitas delas pouco se lembram ou nem chegaram a conhecer.

Quando o grupo fundamentalista governou o país por cinco anos, entre 1996 e 2001, ficou proibida a educação de meninas e o trabalho feminino. Para sair de casa ou viajar, elas precisavam ser acompanhadas por um parente do sexo masculino, e aquelas que eram acusadas de adultério eram apedrejadas.

Como a maioria dos outros residentes de Herat, Zahra, seus pais e cinco irmãos se esconderam em casa, com muito medo de sair e preocupados com o futuro. “Estou em grande choque. Como é possível para mim, uma mulher que trabalhou tanto e tentou aprender e progredir, ter agora que me esconder e ficar em casa?”, disse.

O temor do retorno ao regime Taleban pode ser notada desde antes da tomada do poder de fato pelo grupo. Quando o grupo ainda avançava sobre cidades em poder do governo, cerca de 250 mil afegãos fugiram em direção a Cabul, visto como último refúgio para muitos. De acordo com a agência da ONU para refugiados, 80% desse total eram mulheres ou crianças.

Relatos de pessoas que chegaram a Cabul antes do fim de semana confirmam que, mesmo antes de derrubar o governo, o Taleban começou a aterrorizar mulheres e meninas com ameaças de casamentos forçados, sequestro de mulheres e violência física em territórios já conquistados. Na semana passada, famílias da província de Takhar, que se deslocaram para Cabul em razão do avanço dos rebeldes, relataram que meninas que voltavam para casa em um riquixá motorizado foram detidas e chicoteadas por usarem “sandálias reveladoras”.

Em Cabul, as mulheres já se preparavam para o possível desfecho catastrófico antes da chegada do Taleban. As vendas de burcas – vestimenta que cobre todo o corpo, deixando espaço apenas para os olhos – dispararam na capital, segundo relataram vendedores ao jornal britânico The Guardian. Uma mulher ouvida pelo jornal reclamou da alta nos preços da vestimenta: “No ano passado, essas mesmas burcas custavam 200 afeganes (cerca de R$ 13). Agora eles tentam nos vender por 2 mil ou 3 mil afeganes (entre R$ 130 e R$ 195)”.

Apesar dos sinais da opressão já se materializarem na sociedade afegã, há quem diga que pretende resistir. Uma estudante universitária chamada Habiba, ouvida pela iniciativa local de comunicação feminina Rukhshana Media, disse que a mãe pediu que ela e suas duas irmãs usassem burcas antes da chegada do Taleban, na tentativa de protegê-la.

Vice-diretora nacional da CARE International em Cabul – instituição que trabalha com o desenvolvimento humano no Afeganistão, incluindo empoderamento feminino – Marianne O’Grady, disse que os avanços feitos pelas mulheres nas últimas duas décadas foram consideráveis, principalmente nas áreas urbanas. Apesar do cenário que se avizinha, ela disse que não consegue ver as coisas voltando a ser como eram no primeiro governo do Taleban.

“Não se pode deseducar milhões de pessoas”, disse ela. Se as mulheres “estão atrás das paredes e não podem sair tanto, pelo menos agora podem educar seus primos e vizinhos e seus próprios filhos de uma forma que não poderia acontecer há 25 anos”. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)