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Mãe: exemplo de superação e coragem

Mãe: exemplo de superação e coragem

Por: Beatriz Farias

“Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher/ Sou minha mãe e minha filha /Minha irmã, minha menina /Mas sou minha, só minha e não de quem quiser”.

Esse é o refrão da música 1° de Julho, feita por Renato Russo, em homenagem à Cássia Eller quando ainda estava grávida. A letra fala de maternidade, do amor materno, e dos sentimentos. O trecho ainda faz referência ao temperamento feminino, ao pensamento de uma mulher independente, forte, sentimental, mas que também pode ser selvagem. Mãe e filha, filha e mãe, mulher. No segundo domingo de maio é comemorado o Dia das Mães. No comércio, percebemos o grande movimento nas lojas de floricultura, cosméticos, eletrônicos… Na mídia, por exemplo, a figura da mãe é muito utilizada, principalmente, nas propagandas, onde a retribuição de amor geralmente vem acompanhada de algum produto. Mas pouco se debate sobre os medos, desafios e as transformações dessas mulheres.

Há quem diga que existe trabalho destinado apenas a homens, para a feirante Jane Marinho, 41 anos, mãe de dois filhos, isso não se encaixa. Às três da manhã de todos os dias, acorda para realizar as atividades. Planta, colhe e organiza os frutos. Atualmente, mora em Santa Inês, um povoado da cidade de Sítio Novo-TO, mas nasceu e passou a infância em Imperatriz -MA. Todos os domingos ela comparece à cidade natal para vender os frutos que semeia junto ao marido, Jailson Arruda, na feira do Mercadinho. Aos 17 anos, teve uma filha, Janiele, e dois anos depois, Joel nasceu.

Segundo a feirante, não é fácil a rotina dura que a vida lhe presenteou, mas sempre há motivos para continuar. Resultado desse esforço, o sonho de reformar a casa tem se tornado realidade. Jane tem a certeza que não lhe falta fibra e nem força de vontade, já que a construção do lar é uma conquista de anos. “Foram anos para eu conseguir conquistar tudo isso. Estou gastando muito na construção, e suando também, porque eu acabo ajudando na obra. Meu marido e os pedreiros fazem mais, mas eu faço o que posso. A gente tem que cuidar da horta também, às vezes penso que não vou dar conta, mas sempre dá”, relata Jane.

Jane Marinho

De acordo com o levantamento mundial Global Entrepreneurship Monitor 2017, que no Brasil é realizado em parceria com o Sebrae, mais da metade dos novos negócios abertos em 2016 foi fundado por mulheres. Elas são mais escolarizadas do que os homens empreendedores e a maioria atura no setor de serviços. A taxa de empreendimentos iniciados no país, desde 2007, oscila entre 47% e 54% para homens e mulheres. Em 2016, a taxa foi de 48,5% para homens e 51,5 % para mulheres. Os dados comprovam. Além de feirante, Jane Marinho também é autônoma. Na antiga casa que agora está se tornando nova, Jane já revendia vários produtos. Do sorvete a brinquedos, por isso, ela diz: “Jane Variedades. Tudo que eu vejo que dar pra vender eu estou vendendo. O que não pode é ficar parada”.

Segundo a pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), feita com 247 mil mulheres, de 25 a 35 anos, metade das que se tornaram mães perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. O Brasil tem 12,7 milhões de desempregados segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, de acordo com levantamento da SPC Brasil, a maior parte das pessoas nessa situação são mulheres com média de 35 anos (59%) e com filhos (58%).

Se lançarmos um olhar para trás, podemos perceber que a posição da mulher no mundo e no Brasil mudou. Em termos gerais conseguimos alguns direitos e avanços sociais como o voto, acesso à educação e ao mercado de trabalho. Mas a desigualdade de gêneros ainda persiste, e a mulher carrega cargas sociais só pelo fato de ser mulher. Ainda de acordo com o IBGE, a população brasileira já passa de 208 milhões, sendo que 50,65% são mulheres. No mercado de trabalho, por exemplo, as gestantes geralmente encontram dificuldade na hora de procurar um emprego.

“Alguma coisa aconteceu/ Do ventre nasce um novo coração”.

Geógrafa, mãe, esposa, feliz. A auxiliar administrativo de pessoal, Francisca Gonçalves, 35 anos, mora em Imperatriz.  Ela conta que quando esteve grávida, o mercado de trabalho não foi propício para ela. “Fui demitida por estar grávida e mesmo conhecendo meus direitos, sabendo que a empresa não poderia me demitir por causa da gravidez, não questionei nada pois era uma gravidez complicada e preferi não me estressar com aquilo”, relembra.

Francisca sofreu três abortos espontâneos, e perdeu o pequeno Lucas, que teve apenas nove dias de vida. “Na primeira gestação tive um aborto no primeiro trimestre. Depois engravidei de Lucas que nasceu de parto normal prematuro. Eu estava no período de experiência na empresa, quando fui demitida. Nem mesmo após o nascimento do bebê que viveu apenas 9 dias não corri atrás de justiça porque infelizmente, os empresários daqui na cidade não vê com bons olhos funcionários que denunciam as injustiças das empresas. E como eu precisava trabalhar, engoli essa”, relata a mãe.

Há quatro anos Maria Clara veio ao mundo, e daqui um mês Maria Rita fará companhia para a irmã. A auxiliar administrativa está no oitavo mês. “Agora estou na sexta gestação graças a Deus, tudo tranquilo. Fiz uma promessa que se tivesse filhas, se chamariam Maria”. A mãe ainda relata que uma empresa lhe acolheu assim que teve a filha, mas assim que soube da gravidez, descobriu um Teratoma (tumor germinativo) no ovário.

Francisca Gonçalves

“Passado um mês do resguardo, fui procurar emprego e foi quando uma empresa me contratou, ainda na experiência e fazendo um tratamento descobri que tinha um teratoma e também gestação de Maria. Mas não tive dúvidas em falar para a empresa, que me tratou com todo respeito e trabalhei tranquilamente até dois dias antes do parto. Só não permaneci lá por decisão minha e porque como Klayton Santos (meu esposo) estava trabalhando. Decidimos que eu ficaria um tempo em casa até Maria crescer um pouquinho”.

 “Não basta o compromisso/ Vale mais o coração /Já que não me entendes, não me julgues/ Não me tentes”.

Em 2015, o IBGE apontou que o Brasil marcava 11,6 milhões de mulheres solteiras.  A agente do próprio Instituto, Luciana Bastos, 31 anos, mãe do Pedro e Sarah, e estudante de jornalismo, se enquadra na estatística. Ela conta da responsabilidade de ser mãe e estudante. “Parei de estudar várias vezes por ter filhos, gravidez complicada. Depois deles grandinhos ficou mais complicado pelo fato de ter que trabalhar, sustentar dois filhos, dar atenção, ser dona de casa e estudante. É uma carga gigante onde você não consegue fazer isso o tempo todo, principalmente sendo sozinha como eu sou, sem família na cidade para se apoiar”.

Além disso, Luciana ainda comenta que por ser mãe solteira, atrai olhares críticos. “É difícil ser mãe solteira, os religiosos acham que você é promíscua e que não vai saber educar seu filho, mesmo você tendo se separado de um casamento de longa data, tudo como manda o figurino da igreja. Mas eles pensam que se não tiver um homem na educação, você não educa bem, o que é um absurdo”. A estudante ainda dá um exemplo de persistência. Assim que voltou a estudar, ia para a universidade com um carrinho de bebê e brinca “meus filhos tinham a faculdade como segunda casa”.

Luciana Bastos

A estudante fala ainda sobre o preconceito que enfrenta por ser feminista e participante de movimentos sociais. “Quando me veem em alguma reunião com meus filhos, as pessoas olham torto e com pena dos meus filhos”. Ela rebate: “Oras, o que estou fazendo de errado? Não tenho com quem deixá-los e nem é necessário. Estão aprendendo desde pequenos que todos os direitos que temos são conquistados a duras penas e que é preciso ter empatia com as pessoas e viver bem em sociedade. Não tenho filho porque sou feminista. Tenho filhos porque foi uma escolha minha e do meu companheiro”.

“Vamos descobrir o mundo juntos, baby/ Quero aprender com o teu pequeno grande coração”.

“Sou mãe de coração”. Afirma a funcionária do lar, Meire Gomes, 49 anos, solteira, que sempre teve em seus planos a adoção de uma criança. O filho mais novo, André Luís, 13 anos, chegou em sua vida quando ainda tinha horas de nascido, foi amor à primeira vista. Ela, que já tinha dois filhos biológicos, conta que não há nenhum tipo de diferenças entre eles. “Sempre digo para o André que o carreguei durante nove meses em meu coração, é meu filho assim como os outros que saíram de mim”, explicou Meire.

Nunca é tarde para a busca de mais conhecimento, Meire é a prova disso. Atualmente, estuda para fazer a prova do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos – Encceja Nacional, em Imperatriz. “Quero essa satisfação de concluir meus estudos e poder realizar mais essa etapa na minha vida”. A prova só acontece em agosto, mas Meire se prepara desde já com a ajuda dos filhos. Mais um exemplo de força de vontade.

Que nesse dia das mães as mulheres não sejam enaltecidas apenas de forma sentimental, mas também honrosa. Vimos alguns exemplos de luta, sensibilidade, coragem e bravura. A maioria das pessoas falam e afirmam que o amor verdadeiro vem da figura materna, e que nada se compara a tal sentimento… Mãe pode ser sinônimo de força, liderança, competência… mas o que prevalece, sobretudo, é a capacidade de amar.

“O que fazes por sonhar / É o mundo que virá, pra ti.. Para mim”.

 

FELIZ DIA DAS MÃES!