Home Notícias Saúde Orientação sexual e identidade de gênero: dúvidas e discussões

Orientação sexual e identidade de gênero: dúvidas e discussões

Orientação sexual e identidade de gênero: dúvidas e discussões

Mallú Ferreira/MA10

“Ideologia de gênero existe?”, “Como se comportam as pessoas assexuais?”, “Travesti e transexual significa a mesma coisa?” – Muitas dúvidas ainda surgem quando se trata dos conceitos de identidade de gênero e orientação sexual. Com a expansão da internet e dos espaços de fala para movimentos ativistas, esses assuntos tornam-se mais populares em discussões sociais, mas ainda podem ser confundidos ou mal interpretados.

O assunto foi abordado pelo psicólogo Jefther Lima durante uma roda de conversa intitulada “Desmistificando sexualidade, identidade de gênero e orientação sexual”, atividade integrante do I Congresso de Sexualidade Humana, que está sendo realizado pela universidade Ceuma até esta sexta-feira (20), com atividades no campus do Renascença.

O psicólogo diz que é preciso cautela ao “se rotular” de alguma forma, porque muitas pessoas usam alguns desses termos sem o devido conhecimento. “A recomendação que a gente faz é desmistificar e entender o que significa cada coisa. Se a pessoa quiser se rotular, é preciso que tenha consciência do que está afirmando e entender as consequências que vêm com essa afirmação, porque vivemos em uma sociedade sexista e que por conta disso, tem muitos preconceitos. Por mais que o ativismo e a ciência estejam discutindo mais esses temas, ainda assim vivemos em uma sociedade que ainda discute esses temas de forma errônea e criando conceitos errôneos”, diz ele, que aconselha todos que tiverem dúvidas sobre sua sexualidade buscarem sessões de psicoterapia.

Sobre o assunto, o psicólogo esclarece que o conceito de gênero está relacionado ao contexto social, ao que cada cultura toma por referência como masculino e feminino. E a expressão de gênero se refere às manifestações externas do indivíduo de acordo com o gênero que ele se identifica, como o nome, a vestimenta, o corte de cabelo, o comportamento, a voz e outras características corporais.

Já a ideia de orientação sexual está relacionada à relação de um indivíduo com as pessoas com quem se relaciona. “A orientação sexual tem a ver com o outro por quem ele tem atração. Já a identidade de gênero tem a ver com o eu. O modo como eu me identifico, me percebo, o modo como eu me reconheço”, explica o psicólogo.

“Eu me reconheço como homem? Eu me reconheço como mulher? Eu me reconheço como nem uma coisa nem outra? Eu me reconheço como as duas coisas? Eu me reconheço como ora uma coisa, ora outra? Existem inúmeras quantidades nominais de gênero”, coloca Jefter.

Diante dessa colocação, ele explica que as pessoas podem se identificar como cisgêneros ou transgêneros/transexuais, sendo que os primeiros se identificam com o gênero que lhes é designado ao nascimento e os outros não se identificam.

Imagem: reprodução

Transgêneros/Transexuais

“Transgênero é um termo guarda-chuva, que abrange indivíduos cuja identidade de gênero é diferente daquela que lhe é designada no nascimento, incluindo pessoas que desejam expressar sua identidade de gênero diferente do que foi convencionado para elas, abrangendo transexuais, travestis e indivíduos com diversidade de gênero”, segundo o psicólogo.

Uma pessoa transexual pode apresentar um desconforto com relação à sua área genital, apresentando comportamentos como não olhar seus genitais e não manipulá-los. O especialista afirma que existem casos em que pessoas transexuais sofrem infecções genitais por falta de higienização, por tentar ignorar aqueles órgãos. Segundo ele, a percepção que essas pessoas têm é a de que estão presas no corpo errado.

Ele ainda coloca que a distinção entre transexuais e travestis é feita principalmente no Brasil, e que em outros países ela não é tão bem  estabelecida. Segundo ele, essa questão ainda é bastante levantada e debatida entre especialistas. “Não seria o transexual apenas considerado mais ‘higienizado’ do que a travesti?”, questiona ele, apontando que as travestis são historicamente marginalizadas e ridicularizadas, além de possuírem pouca inserção no mercado de trabalho. “O Brasil é o país que mais mata travestis. De cada 10 mortes, 4 são registradas aqui”, diz o especialista.

Jefter aponta que a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), em sua última revisão, considera a transexualidade uma doença, sendo usado o termo transexualismo. Contudo, para a nova atualização da CID, estão sendo avaliadas propostas pela despatologização da transexualidade.

A questão gerou várias discussões sobre o assunto, já que caso a transexualidade deixe de constar no catálogo internacional de doenças, a cirurgia de redesignação de sexo pode passar a ser considerada um procedimento eletivo e estético, tirando a disponibilidade da cirurgia por meio do sistema público de saúde.

Ideologia de gênero ou identidade de gênero?

A ideologia de gênero também é um termo usual quando se discute a sexualidade humana. Contudo, profissionais e pesquisadores da psicologia não concordam com esse conceito.

“Uma grande parcela da população tem reproduzido esse termo (ideologia de gênero), como se as pessoas que defendem as questões de gênero quisessem fomentar uma ideologia nas pessoas, diferente da que vínhamos pensando há muito tempo. Para nós que estudamos sexualidade humana, esse termo não existe. Existe a identidade de gênero, que precisa ser respeitada”, afirma Melina Serra, professora de psicologia da Universidade Ceuma e pesquisadora na área.