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A voz da resistência ecoa no carnaval maranhense

A voz da resistência ecoa no carnaval maranhense

Francisco Junior – Especial para o MA10

A lua pairava ansiosa sob o Cais da Sagração quando uma lenda da Música Popular Brasileira, Elza Soares, saudou os foliões no circuito Joãosinho Trinta, na Beira Mar e brindou o público com uma apresentação que intercalou grandes clássicos da cantora com manifestações contra o racismo, em defesa do respeito às mulheres e à diversidade sexual e de gênero, e a favor da mobilização popular em prol de dias melhores para o país.

Na lista de canções apresentadas pela cantora, a clássica “Volta por cima”, cuja letra parece narrar uma autobiografia de Elza Soares. “Dar a volta que eu dei quero ver quem dava”, diz um trecho da música, integrante do repertório de sucessos reconhecidos internacionalmente de uma brasileira, negra e mulher que enfrentou o racismo e a hipocrisia construindo uma trajetória que pode ser resumida em duas palavras: talento e resistência.

No decorrer do show, era possível testemunhar pequenos gestos de afeto e carinho entre casais de todos os gêneros. As canções de Elza Soares, apesar de “tocarem o dedo na ferida” para diversos temas que a cantora fez questão de abordar, trouxeram também uma mensagem de que qualquer maneira de amor vale a pena. Porém, como frisou ela em um momento do show quando cantava “Maria da Vila Matilde”, o recado é bem direto: “Cê vai se arrepender de levantar a mão para mim!”.

Alertando para a necessidade de conscientização dos homens e mulheres sobre todas as formas de violência, inclusive a do assédio, muito freqüente em período carnavalesco, Elza Soares avisou logo ao fim da música: “Não é não!”. Em seguida, tocou em frente a apresentação com outro clássico, onde deixa uma mensagem sem rodeios contra o racismo e com aquela voz que lhe rendeu o prêmio de cantora do milênio. Ecoou na Baia de São Marcos, por onde durante muito tempo circularam inúmeros navios negreiros, um verso incontestável: “ A carne mais barata do mercado é a carne negra”!

Os versos da música a “Carne”, um dos sucessos do álbum lançado em 2002 “Do Cóccix Até o Pescoço”, são emblemáticos, incisivos mas extremamente realistas.

Por conta de questões de saúde, que a leva a cantar sentada, Elza Soares fez um show breve, mas intenso, deixando bem claro a mensagem de que cada um é protagonista da sua história e de que no carnaval, assim como na vida, o enredo é a gente que faz, e cabe a nós decidir qual o tom que queremos para construir, na medida do possível, uma sociedade despida de discriminações, violência e preconceitos.