Home Cultura Teatro Poesia da terra: a sensibilidade do gênio improvável João do Vale em musical

Poesia da terra: a sensibilidade do gênio improvável João do Vale em musical

Poesia da terra: a sensibilidade do gênio improvável João do Vale em musical

Raíza Carvalho – da redação do MA10

Os corações maranhenses bumbando de orgulho e emoção – este é o resultado do Musical João do Vale, o Gênio Improvável, que estreou na última sexta-feira (8), no palco sagrado do glamoroso Teatro Arthur Azevedo. Abrindo cortinas que celebram 200 anos de história, o musical revela a história de rapazinho negro e pobre nascido em Pedreiras (MA) que se tornou um dos maiores expoentes culturais do Brasil e o maranhense do século XX.

 

Com um competente elenco e a direção geral afinada de Vinícius Arneiro e direção musical de Luiz Júnior, o espetáculo faz um passeio gostoso pelas músicas e a história de João do Vale. Dotada de um tempero maranhense em cada pedacinho, a peça assinada por Felipe Correa revela as fases da vida e as diversas facetas de João.

 

Como se preparasse o espírito da plateia para a peça, um pequeno documentário traz relatos dos amigos de João – os anônimos e os artistas. Moisés, do povoado de Lago da Onça, mostra a casa onde João nasceu. Já amiga-irmã, Maria Bethânia, fala com extremo carinho e admiração pelo maranhense. “Ele era um diamante. Ele tinha uma força bruta. E era sim um poeta do povo, mas não apenas isto”, relata a cantora, que teve seu primeiro grande sucesso em Carcará, música de João.  Na grande lista de amigos, admiradores e cantadores de sua música, nomes prestigiados como Chico Buarque, Geraldo Azevedo, Caetano, Gilberto Gil, Rogeryo du Maranhão e Zeca Baleiro, que resume bem o espírito do conterrâneo: “Um milagre tipicamente brasileiro”.

 
Nas primeiras cenas, a parceria frutífera com Nara Leão e Zé Keti é apresentada ao público. Parceria que depois marcaria história no Show Opinião, pelo qual João e seus companheiros foram acusados de subversão em um período de ditadura no Brasil.  A peça faz uma breve retomada da adolescência de João, quando ele deu seus primeiros passos na carreira. A infância pobre e sem perspectiva, mas cheia de poesia no sertão maranhense, foi deixada para trás, quando João fugiu e foi ser pobre no Rio de Janeiro. Lá, ele descobriu que o Sudeste também tinha seu combo de miséria e beleza. Com a grande ambição quase irrealista de ser cantor de rádio, João também se orgulhava do chão que lhe pariu. “Todo mundo canta sua terra, eu também quero cantar a minha!”. Quem ouvia debochava. “Onde já se viu ajudante de pedreiro virar cantor de rádio?”

 

Os cantores Marlene e Luís Vieira foram alguns dos que se encantaram com a obra e fizeram a estrela miúda, que era João do Vale, brilhar.

Trecho de João do Vale, o musical.

PARA CANTAR JUNTO

Os versos bem executados de Peba na Pimenta, Minha História, Morenas do Grotão, carregados da herança inegavelmente nordestina, emocionaram o público, que acompanhava cantando e se mexendo nas cadeiras, com vontade de dançar.

No Sudeste, João descobriu que também havia um combo de miséria e beleza.

A naturalidade da produção ganhou reforço com a ausência de coxias (a armação de tecidos montadas nas laterais do palco) e as trocas de roupas e personagens feitas às vistas da plateia. Em um dos momentos mais marcantes da peça, a atriz Millena Mendonça, que interpreta Domingas, esposa de João, interpreta Carcará com toda a força a crueza da música e da vida do sertanejo. Em meio à interpretação emocionada da atriz, um grito pelo Nordeste: as denúncias de violência, miséria e desemprego tiram o nó na garganta do nordestino.  As palmas da plateia em cena aberta foram inevitáveis.

O texto de Felipe Correa tem seus méritos na pesquisa do personagem, mas peca em um excesso de didatismo que chega a infantilizar o protagonista em alguns momentos. O lado difícil do compositor maranhense, detalhes de sua personalidade e vida pessoal ficaram em segundo plano. A falta de experiência em atuação do protagonista Vicente Melo, intérprete de João do Vale, pode ser notória para olhos mais atentos – mas não a ponto de lhe tirar o brilho, com canções belamente executadas e uma semelhança cheia de vantagens com o próprio personagem.

O competente elenco composto por atores maranhenses deu conta do recado de entregar um trabalho com a linguagem musical – a maior parte deles não tinha qualquer experiência com o gênero. Formado por Vicente Melo, Gisele Vasconcelos, Marconi Rezende, James Pierre, Juliana Cutrim, Millena Mendonça, Victor Silper e Tiago Andrade, as cenas foram dinâmicas e divertidas, refletindo um bom resultado da preparação de elenco de Urias de Oliveira. Deficiências como a falta de harmonia e naturalidade em cenas pontuais devem ser sanadas nos próximos meses, após o espetáculo estar algum tempo em cartaz, já que a ideia é de que o espetáculo seja apresentado em diversos estados do Brasil, propagando a herança e dando ainda mais força à bela voz de João do Vale.

Música, poesia, sensibilidade. Contexto histórico apresentado por locutores de rádio. O Nordeste de Lampião celebrado. O Maranhão de João pulsando nos palcos, com momentos de menção ao  Cacuriá e Tambor de Crioula mesclando-se às canções do artista. Com um esforço louvável da produção de Celso Brandão e um trabalho incansável de todos os músicos e envolvidos no processo, ‘João do Vale – O Musical’ quebra um jejum de anos na história do teatro musical autoral maranhense e torna-se uma bela representação da cultura do estado. Viva João do Vale!

João do Vale dança forró com Domingas, sua esposa, interpretada por Millena Mendonça.