Moradores do Cajueiro sofrem com desmatamento em nome do lucro

SÃO LUÍS – João Germano, um agricultor que costumava ser dono de um terreno com 8 hectares de extensão, acorda cedo todos os dias para conferir o plantio e colheita da lavoura. Com vários filhos e netos, João conseguiu retirar das terras o sustento de toda a família durante anos, na comunidade do Cajueiro, zona rural de São Luís.

As mãos estão repletas de rugas e os olhos, marcados pela ação do tempo, se afligem pela preocupação dos últimos meses. Ele é mais um dos muitos moradores da comunidade que relata estar se sentindo pressionado diante da ação da empresa WTorre.

Desde que iniciou a ampliação do Terminal Portuário da capital, a empresa começou a destruir a vegetação da área e comprar, por preços considerados muito abaixo do mercado, os terrenos dos moradores do entorno.

“Eles passaram lá em casa, sem ao menos saber se eu queria vender, e me botaram R$ 40 mil [no terreno]”, conta o agricultor. O especialista em especulação imobiliária, Hugo Mota, diz que o preço não corresponde ao praticado no mercado. “Ninguém venderia um terreno de oito hectares por esse valor, exceto as pessoas com pouca instrução e conhecimento sobre mercado imobiliário. É aí que muitas empresas se aproveitam”, analisa.

Quem mora nas casas da comunidade garante, por meio de documentos passados em cartório, que a propriedade do imóvel é legítima.

O eletricista Eucimar Santos diz que ofereceram R$ 20 mil pela casa em que mora, deixada como herança por seu pai. A contrapartida, caso não aceitasse, seria a demolição do imóvel. “Fico muito triste”, lamenta.

ANIMAIS SILVESTRES

Outros moradores também se indignam pela insegurança trazida com o desmatamento da área. Depois que se iniciou o corte da vegetação, animais silvestres, que se escondiam no matagal, passaram a invadir as casas. Em vídeo, os moradores mostram jacarés e cobras entrando nas residências.

O pescador Ailton Costa se emociona e diz que não pode mais deixar o filho pequeno brincar no quintal ou na porta da própria casa. “Agora eu preciso deixar o meu filho preso, com medo de que algum desses animais venha a gerar algum dano pra ele” (SIC).

Os moradores afirmam que querem permanecer na comunidade do Cajueiro, lugar onde nasceram, cresceram e constituíram suas famílias. Eles pedem intervenção no local para frear as ações da empresa.

O professor doutor em sociologia Horácio Antunes realiza pesquisas científicas na área há 12 anos. Ele afirma que a empresa possui um planejamento ambiental, mas discorda da estratégia empregada.

“Não contempla efetivamente as questões ambientais e nem considera a presença do Terreiro do Egito, um espaço histórico extremamente importante para a prática das religiões afro na comunidade e nem considera o modo de vida dos moradores do Cajueiro”, destaca.

Veja mais na reportagem de Olavo Sampaio:

Em nota, a empresa diz que tem todas as licenças para a execução das obras. Leia:

A WTorre informa que tem todas as licenças necessárias para o início de obras. Por conta disso é que iniciou os trabalhos de supressão vegetal. Cabe esclarecer que a grande parcela da Comunidade do Cajueiro situa-se fora da área a ser instalado o Terminal Portuário de São Luís. Já os moradores vizinhos à área de instalação do terminal estão sendo acompanhados pelas empresas responsáveis pelas obras no local. Quanto aos benefícios do empreendimento, há a possibilidade de criação de postos de trabalhos e desenvolvimento para a região.

 Informações complementares:

  • Termo de Compromisso 004/2016, firmado entre o Terminal Portuário de São Luís (WPR São Luís) e a SEMA – Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Naturais, no valor de R$ 4,5 milhões, destinados à área ambiental;
  • Projeto de compensação social para construção de escola, posto policial, posto de saúde para a comunidade local;
  • Geração de 4 mil empregos diretos e indiretos;
  • Contratação de empresas locais para o desenvolvimento, construção e operação deste projeto;
  • Geração de recursos tributários e fiscais para o munícipio, estado;
  • Geração postos de trabalho e consequente capacitação técnica dos profissionais;