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Os sinais escondidos que podem revelar se uma foto é ‘fake’

Os sinais escondidos que podem revelar se uma foto é ‘fake’

As pistas não são tão claras para observadores comuns, mas Hany Farid enxerga muitas indicações de que a imagem foi alterada – em especial um dos reflexos nas vidraças.

Um dos homens que você vê foi artificialmente colocado na foto.

Pesquisas mostram que muitos de nós sofremos para diferenciar fotos reais de armações (ou fakes). Farid, no entanto, é perito em análise digital e de imagens. É capaz de examiná-la e encontrar sinais quase imperceptíveis que indiquem manipulação.

Luz nos olhos

Um dos truques que ele aprendeu com o passar dos anos foi checar os pontos de luz nos olhos de pessoas. “Se há duas pessoas perto uma da outra em uma foto, geralmente conseguimos ver o reflexo da fonte de luz (o sol ou o flash) nos olhos delas”, explica.

“A posição, o tamanho e a cor desse reflexo nos dão informações sobre a fonte de luz. Se elas não são consistentes, a foto pode ter sido manipulada.”

Outro detalhe que pode revelar uma farsa é a cor das orelhas das pessoas. “Se o sol estiver atrás de mim, minhas orelhas parecerão mais vermelhas vistas da frente, porque você consegue ver o sangue. Mas, se a luz vem da frente, você não verá vermelho nas orelhas.”

Farid é diretor do departamento de Ciência da Computação do Dartmouth College, uma das mais prestigiadas universidades americanas. Ele estuda há décadas a arte da manipulação de imagens.

Um dos pontos mais importantes para averiguar a veracidade de imagens é a sombra de objetos e pessoas. Se desenharmos uma linha entre a ponta da sombra e a parte do objeto que está fazendo a sombra, podemos estender a linha para revelar de onde a luz de uma imagem está vindo.

Ao mapearmos diversos pontos em uma sombra, as linhas que saem deles até o objeto devem cruzar-se. Em uma foto que sofreu alterações, as sombras de alguns objetos na imagem podem não combinar com as fontes de luz no resto da foto, como explica Farid.

Este método torna possível identificar imagens que tiveram pessoas ou objetos adicionados após terem sido tiradas.

Da mesma forma, o reflexo de objetos e de pessoas também “entrega” eventuais falsificações. Se traçarmos linhas entre os objetos e sua imagem projetada, elas precisam convergir em um único ponto atrás da superfície refletora. Caso contrário, algo foi alterado.

 

JAMES O´BRIEN E HANY FARID Image caption Traçar linhas com os reflexos de objetos e pessoas mostra se uma imagem foi manipulada

Política

No mundo de hoje, imagens falsas têm implicações em todos os aspectos de nossa vida. Da política à medicina.

“Não há uma eleição em que não nos vejamos imagens falsas de um jeito ou de outro”, explica Farid. “Fotos são adulteradas para que um candidato pareça melhor. Ou recebem multidões artificiais, como um público mais diverso, para que o candidato não pareça racista. Também podem-se usar composições para que adversários apareçam de forma negativa.”

Um exemplo foi quando, na campanha presidencial americana de 2004, surgiu uma imagem do candidato do Partido Democrata, John Kerry, ao lado da atriz Jane Fonda durante uma manifestação pacifista nos anos 1970 (isso reforçaria as credenciais antiguerra de Kerry, que criticava o rival republicano, George W. Bush, por seu papel na Segunda Guerra do Golfo).

Descobriu-se mais tarde que a imagem tinha sido composta por duas fotos diferentes.

Se John Kerry encontrou-se com Jane Fonda nos anos 1970, não foi neste dia: especialistas descobriram composição na foto

Em 2012, por exemplo, a BBC Future publicou um guia para identificar imagens fake da destruição provocada pelo furacão Sandy nos Estados Unidos. Fotos como as que mostravam nuvens de tempestade ameaçadoras acima da Estátua da Liberdade, por exemplo.

O uso de imagens falsas precede até a internet. Um famoso retrato do presidente americano Abraham Lincoln, assassinado em 1865, é considerado uma composição por diversos especialistas, com a cabeça do presidente sendo adicionada ao corpo de outra pessoa.

Mas a difusão de câmeras digitais e programas de edição de imagens tornou a prática mais problemática do que nunca.

Mesmo governos têm culpa no cartório. O Irã, por exemplo, divulgou em 2008 imagens que mostravam um lançamento de mísseis totalmente bem-sucedido – mas um dos lançadores falhara.

“Quando fotos de lugares como Coreia do Norte, Iraque e Síria são usadas para ajudar autoridades a tomar decisões importantes, sua autenticidade precisa ser verificada sempre que possível”, adverte Farid.

Mas o que os meros mortais podem fazer para detectar imagens falsas na internet?

Ainda que não tenhamos à nossa disposição a expertise e o equipamento de Farid, há outras maneiras de analisar criticamente uma imagem.

Buscas em sites como o tineye.com ou o Google Images podem indicar se uma imagem já foi denunciada como fake. O snopes.com examina especificamente imagens que viralizam.

Farid sugere ainda verificar a fonte da imagem. Fotos publicadas em sites de notícias de boa reputação têm maior chance de serem reais do que material publicado em blogs menos conhecidos ou no Facebook. Mas mesmo veículos de imprensa tradicionais podem ser enganados por um bom fake.

O melhor caminho é sempre perguntar a si mesmo se uma foto é “boa demais para ser verdade”.

“É necessário ter sempre uma boa dose de ceticismo com imagens digitais. Mas não deixe esse sentimento tomar conta, porque também é muito fácil pensar que uma foto real é falsa”, diz o especialista.

De BBC BRASIL