Home Cultura Inscrições para prêmio literário Ferreira Gullar encerram hoje

Inscrições para prêmio literário Ferreira Gullar encerram hoje

Inscrições para prêmio literário Ferreira Gullar encerram hoje

Unir literatura e tecnologia é a proposta do Prêmio Literário Ferreira Gullar, que recebe inscrições até a próxima terça-feira (16). Aberto a estudantes dos ensinos fundamental e médio de escolas públicas e privadas, propõe o desenvolvimento de jogos eletrônicos ou aplicativos que incentivem a leitura e, sobretudo, o conhecimento da obra do poeta maranhense Ferreira Gullar.

Ao todo serão distribuídos R$ 30 mil em prêmios, além de troféu e diploma aos três primeiros colocados. O primeiro lugar receberá R$ 10 mil, o segundo, R$ 7.142,86 e o terceiro, R$ 4.285,72. O Prêmio Literário Ferreira Gullar é promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) e as inscrições devem ser feitas via internet. Toda a documentação exigida deverá ser encaminhada pelo Sistema de Acompanhamento às Leis de Incentivo à Cultura (SalicWeb).

Esta iniciativa faz parte do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), que tem como diretrizes a democratização do acesso à cultura e o fomento à leitura. Dentro dessa proposta, o edital surge com o objetivo de estimular a leitura e, ao mesmo tempo, homenagear o escritor Ferreira Gullar (pseudônimo de José de Ribamar Ferreira), falecido em dezembro de 2016.

Veja alguns de seus poemas:

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

 

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Poeta Maranhense.

 

Vida de Gullar –  Ao lançar, em 1954, o livro A Luta Corporal, aproximou-se dos poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, de São Paulo, criadores do movimento da poesia concreta. A convite deles, participou da Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1956. Mas no ano seguinte, publicou no Jornal do Brasil um artigo crítico sobre o movimento, o que levou ao rompimento.

Poeta, crítico, ensaísta e pensador da cultura, Gullar criou em seguida, no Rio de Janeiro, o movimento literário neoconcreto, na década de 1950. Os neoconcretistas acreditavam que a arte tinha sensibilidade, expressividade e subjetividade próprias e eram contrários às atitudes cientificistas e positivistas nas manifestações artísticas. Desse grupo participavam, entre outros, os artistas Lígia Clark e Hélio Oiticica. Mas seu vínculo a esse movimento também não se prolongou, e Gullar voltou-se para uma poesia mais popular e politicamente engajada.

Em busca de uma linguagem própria, Gullar foi da poesia concreta ao cordel, mas sua poesia adquiriu verdadeira força com o livro Dentro da noite veloz, publicado em 1975. A partir daí, investiria em versos livres, numa poesia questionadora e de tons sociais. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, Gullar chegou foi preso e exilado durante o regime militar. Nesse período, publicou Poema Sujo (1976), quando estava no exílio em Buenos Aires. Trata-se de um longo poema, em que Gullar, sentindo sua vida ameaçada, procura dar sua impressão sobre tudo que viveu e presenciou. Voltou ao Brasil em 1977.

Ao longo de sua vida, escreveu diversas peças teatrais, em parceria com outros dramaturgos, como Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, e Dias Gomes. Recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção de 2007, com Resmungos. Publicou diversos livros de poesia, ficção, ensaios e literatura infanto-juvenil. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões e, quatro anos mais tarde, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Em 2016 Ferreira Gullar foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural (OMC) no grau máximo Grão Cruz. Oferecida pelo MinC, a OMC é a principal condecoração pública da área da cultura no Brasil.