Home Cultura Crianças emocionam público em homenagem a Ferreira Gullar

Crianças emocionam público em homenagem a Ferreira Gullar

Crianças emocionam público em homenagem a Ferreira Gullar

Casa cheia. Crianças, jovens e adultos na plateia. Muita alegria e entusiasmo. A causa desse encantamento no público? A apresentação de alunos do Maternal ao 5º ano do Ensino Fundamental I de escola particular de São Luís, dia 29 de abril. Baseado em obra do poeta maranhense, o evento que levou seu nome, XXII Salão de Leitura “Encantos Poéticos: uma homenagem a Ferreira Gullar” foi permeado de música, poema, teatro e exposição, expressando a essência deste escritor, envolvendo todos os presentes.

‘Traduzir-se’, ‘Não há vagas’, ‘O trem’, ‘A vida’,  ‘Menina passarinho’,  ‘A alegria pelo ar’,  ‘O sorvete’, ‘O menino caipira’ são apenas algumas poesias, dentre tantas outras declamadas e expostas no Salão, de autoria de Gullar, cujo nome verdadeiro é José de Ribamar Ferreira, que faleceu em 2016, aos 86 anos, e foi eternizado pelo legado de sua obra e também por ser um dos Imortais da Academia Brasileira de Letras.

A mãe da Rafaela Gianna, do 3º ano do Ensino Fundamental I, Adriana Freitas Faria, acha que salões de literatura incentivam a visão crítica da criança para que sejam jovens capazes de conduzirem suas vidas

Adriana Freitas Faria, mãe da Rafaela Gianna, do 3º ano do Ensino Fundamental I, acredita que esse tipo de atividade proporciona à criança abertura para a arte, literatura e à reflexão. “Parece que os jovens hoje estão sem sonhos, anestesiados, sendo conduzidos e não conduzindo suas vidas, e estudar esses poetas dá um novo olhar para o mundo, para a vida”, revela.

A irmã do homenageado, Núbia Ferreira Alvim, ficou emocionada ao assistir às apresentações e afirmou estar maravilhada com a ocasião. “Ficamos orgulhosas que, em São Luís, assim como pelo Brasil, ele é lembrado. As crianças em contato com a obra dele poderão ser influenciadas positivamente em suas vidas”, aponta.

A mãe de alunas e jornalista Marla Medeiros considera fundamental este tipo de iniciativo. “Incentiva a criança a fazer uma interpretação da arte para que ela conheça o universo da literatura, principalmente, neste contexto em que vivemos do mundo digital. Até nós, adultos, passamos a conhecer melhor Ferreira Gullar”, destaca. As suas filhas Giulia e Lara Medeiros Prudente, do 2º ano do Ensino Fundamental I, disseram que treinaram a poesia na escola e em casa e ficaram felizes com o resultado.

A coordenadora pedagógica Analete Sousa justifica a escolha do poeta para o Salão deste ano por ele, além de ser maranhense que valorizou sua cidade, ter feito a diferença na história do Brasil, em especial, na época da Ditadura.

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Crianças em homenagem a Ferreira Gullar

Um pouco sobre Ferreira Gullar: Escreveu livros como Etapas da arte contemporânea (1985) e Argumentação contra a morte da arte (1993), onde discute a crise da arte contemporânea; as peças Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e A saída? Onde fica a saída?, com Oduvaldo Vianna Filho. De volta do exílio, escreveu a peça Um rubi no umbigo, montada pelo Teatro Casa Grande em 1978. Mas Gullar afirma que a poesia é sua atividade fundamental. Em 1987, publicou Barulhos e, em 1999, Muitas Vozes, que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.