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Filhos sem limites, pais perdidos: sobrou para a escola resolver

Filhos sem limites, pais perdidos: sobrou para a escola resolver

capa vitamina N

“Você tem que explicar quantas vezes eu quiser, porque sou eu quem paga seu salário”, disse um aluno de uma escola particular de São Luís à professora em sala de aula. A resposta veio porque a professora disse que não explicaria novamente a matéria, caso este aluno não parasse de conversar enquanto ela dava aula. Noutra ponta da cidade, numa escola pública estadual, o professor foi ameaçado de morte por um aluno que não aceitou ser repreendido. São apenas dois casos de muitos que acontecem diariamente. O consenso entre escolas e psicólogos é que o problema é a falta de limite em casa.  Falta à criança e ao adolescente ouvirem mais “Não”, o que fez o psicólogo americano John Rosemond batizar essa carência de Vitamina “N” (vídeo abaixo).

O caso do aluno com a professora terminou bem, mas o pai ainda chegou a tomar as dores do filho e procurou a direção da escola pedindo advertência à professora. É que a professora não ficou quieta diante do enfrentamento do adolescente e respondeu-lhe em sala: “Se as coisas funcionam como você pensa, então eu pago sua mesada”.  Diante da surpresa da turma, ela foi ao quadro e montou uma engrenagem do sistema capitalista e perguntou  ao menino qual era a profissão do pai dele. Ele respondeu: “médico”. E ela começou a riscar e a mostrar toda a cadeia de atendimento dos médicos. “Ele recebe plano de saúde?”, perguntara. “Então, eu pago a sua mesada, porque eu pago plano de saúde”. A professora  concluiu que todos dependemos de todos.  Mas em vez de o pai apoiar o discurso de igualdade, ele reforçou a diferença.

A psicóloga maranhense Irlene Borges,  com especialização em Terapia Cognitiva Comportamental e diretora do Instituto Ser, vê com preocupação esses casos crescentes e ressalta que é a família que tem o papel de passar valores éticos, morais, religiosos, o que é de boa índole e o que não é de bom caráter, ensinar a se comportar educadamente com outras pessoas, a respeitar seus limites.

“É na constituição da família que se molda a personalidade da criança”, afirma.  “Já a escola tem o papel de continuar a ensinar o que os pais começaram. Além do letramento, das diversas culturas que ali possui, a criança aprenderá a conviver com outras pessoas que possuem valores diferentes do seu, ela verá o mundo com seus olhos e não apenas com a visão de sua família, formará suas opiniões sabendo expressá-las. A escola será o seio onde ensinará que a vida é cheia de regras e que devemos cumpri-las, caso contrário terá uma consequência”.

PAIS LEGAIS, FILHOS PERDIDOS

Um dos dificultadores é que os pais querem ser sempre o amigo gente boa.  Assim percebe a diretora de um dos colégios particulares renomados de São Luís, o Upaon-Açu, existente há 35 anos, Elsa Balluz. Ela diz que é comum receber pai de aluno pedindo seu apoio em questões pessoais, como, por exemplo, o consumo de bebida alcoólica pelo adolescente dentro da própria casa. “Ouço coisas do tipo: meu filho está errado, mas não quero dizer para ele. Querem a responsabilização da escola em áreas em que não temos responsabilidade”, analisa.

Por sua vez, ela também recebe o pedido de socorro dos alunos. “Eles dizem para mim: Tia, eu passo final de semana inteiro na casa de amigos e minha mãe nem liga para ir me buscar”, diz Elsa. “É comum essa saudade de uma mãe viva”, observa.

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Elsa:  “Os alunos tomando as rédeas de suas decisões”

MOVIMENTO DAS ESCOLAS

Como as escolas devem fazer, então, para reverter ou evitar a falta de limites em casa? A escola estadual Nascimento Moraes disponibiliza psicopedagogo para  orientar os pais e alunos. O diretor Francisco Pimentel disse que o diálogo e aconselhamento são constantes com os alunos. “Isso fez com que hoje não tenhamos mais índice de violência na nossa escola”, garante.

No Upaon-Açu, além do psicopedagogo, este ano está sendo feito um investimento maior. “Já vínhamos trabalhando com alunos, mas percebemos que isso não repercutia tanto, pois são poucas horas com eles”, explica Elsa Balluz.

A escola foi buscar o suporte do médico psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury, autor da Teoria da Inteligência Multifocal, que aborda o funcionamento da mente, o processo de construção dos pensamentos e da formação dos pensadores. Ele idealizou o programa “Escola da Inteligência”, que envolve o professor, família e o estudante, visando à educação da emoção no ambiente escolar.

A metodologia ocorre por meio da educação das emoções, buscando melhoria dos índices de aprendizagem, redução da violência nas escolas, aprimoramento das relações interpessoais e o aumento da participação da família na formação integral dos alunos. Pelo projeto, a escola trabalha palestras, com suporte de livros que devem ser lidos em casa, com pais e avós. O material é preparado de acordo com a série do aluno.

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Augusto Cury criou programa para apoiar famílias e escolas

“Vamos iniciar este ano este programa, mas sempre fizemos com os alunos, desde os pequenos, o exercício de colocar-se no lugar do outro.  Desde cedo eles percebem que é o outro que me dá condição de existência. Quando eu não me preocupo com o outro eu crio um mundo exclusivo meu. E o mundo é coletivo”, explica a diretora.

“Por isso que pesquisamos um projeto para que as famílias fossem protagonistas de suas escolhas, porque o mundo está posto. Os alunos precisam tomar as rédeas de suas decisões. Errar faz parte do aprendizado, mas sobretudo que saibam refletir e aprender com os erros”.

 

Psicólogo John Rosemond: “Dê a seus filhos não mais de 25% do que eles simplesmente querem”

CINCO PONTOS COM A PSICÓLOGA IRLENE BORGES 

Irlene
Irlene: “Família desestruturada faz com que a criança se desestabilize”

Rebeldia

A escola é menos afetiva do que o seio familiar, por isso as suas normas são mais evidente do que dentro de casa. A família, a escola e a sociedade ensinam e advertem de maneiras diferentes. A rebeldia também pode ser uma reação a um momento que uma criança está vivendo. É preciso analisar a fase da criança, as circunstâncias e o que está acontecendo na família naquele momento que possa está afetando o comportamento. O fator principal é a paciência. É preciso ter calma para educar, argumentar, e compreender os sentimentos da criança.

Pais distantes

Aprendemos a gostar, dividir e respeitar o próximo na fase da infância. É na relação familiar que os valores se constroem e moldamos nossa personalidade. Para que este processo ocorra de forma saudável, a presença física e emocional dos pais é essencial e deve ser mantida sempre que a criança necessitar de cuidados e atenção. A presença física dos pais na vida dos filhos é um elemento organizador dos vínculos que devem ser construídos ao longo da vida, portanto deve ser respeitada.

A criança aprende as sensações que vivencia. Se a distância entre pais e filhos se torna frequente, deixa-se de viverem algumas situações que são determinantes na relação afetiva e hierárquica necessária entre eles. Por isso, se não tem outra forma, o jeito é tentar construí-las tornando os reencontros ao final do dia ou aos finais de semana, momentos agradáveis e total entrega a eles.

Duplo comportamento

Mesmo na fase em que a realidade se mistura com a fantasia, por volta dos sete anos, é preciso que a criança seja compreendida. Não temos “bola de cristal” e nem sempre é fácil perceber o que leva uma criança a não dizer a verdade. Mas muitas vezes isso é possível se houver ação conjunta. Se a mentira envolve a escola, é importante que os pais se reúnam com a professora, coordenadora, com quem puder ajudar.

Separação conjugal

Quando a criança apresenta um comportamento desordeiro pode estar refletindo algo que lhe aconteceu, influenciando a se comportar dessa maneira. Essas supostas consequências poderiam ser provocadas por algum tipo de distúrbio, por influência do ambiente e por algum problema emocional que acomete a família, o que influência muito nas ações da criança seja ela disciplinada ou indisciplinada.

O assunto principal aqui tratado é a influência que a família provavelmente terá e a parcela de responsabilidade sobre o comportamento dos filhos. Portanto uma família desestruturada faz com que uma criança se desestabilize em sua vida como seu conceito, seu modo de agir, de pensar e de como interagir com outras pessoas que estão em sua volta.

Estudos prejudicados

Quando o esforço dos pais e educadores não funciona e a rebeldia da criança está influenciando negativamente os seus estudos e suas relações, é hora de buscar ajuda de um profissional especializado. Pois, em alguns casos, crianças que não são tratadas podem se tornar adultos vulneráveis e com dificuldades emocionais.