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Psicólogo esclarece mitos e verdades sobre depressão

Psicólogo esclarece mitos e verdades sobre depressão

Definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a principal causa de incapacidade em todo o mundo, a depressão ainda é considerada um tabu para muitas pessoas, segundo o psicólogo clínico Franselmo Júnior. E uma das motivações para o caso é o desconhecimento sobre a doença, que atinge cerca de 350 milhões de pessoas de todas as idades pelo mundo.

Franselmo também afirma que é comum que pessoas com depressão sintam-se retraídas a falar sobre o assunto, por medo de rejeição ou hostilização. “É preciso sim falar sobre o tema, quebrar tabus” afirmou o psicólogo.

Acompanhe abaixo a entrevista completa que Franselmo Júnior concedeu exclusivamente ao Portal MA 10, esclarecendo dúvidas sobre a doença.

  1. O que sente uma pessoa com depressão? Quais sinais que apontam indícios da doença?

Os sintomas psíquicos mais comuns são humor depressivo, sensação de perda ou falta de energia, diminuição na capacidade de se concentrar, dificuldade em tomada de decisões, entre outros. Já os físicos são insônia em algumas pessoas, ou hipersonolência (sono excessivo) em outras, redução ou aumento do apetite e redução no interesse sexual. Existem alguns sinais que podem identificar uma pessoa com depressão, como retraimento social, crises de choro e comportamentos suicidas. O ideal é encaminhar pessoas com estes sintomas ao psicólogo.

depressão

  1. Quais são os maiores mitos que ainda existem em sociedade sobre a depressão?

Bem, existem muitos mitos em relação à depressão. É comum ouvir pessoas (sem qualquer informação mais aprofundada em relação ao tema) afirmarem que depressão é coisa de gente “fresca”, fraca, de má vontade, sem fé em Deus, preguiçosa, possuída por algum encosto ou demônio, dentre muitos outros mitos em relação ao tema. É importante frisar que essas afirmações não contemplam as definições acerca da depressão.

  1. Do seu ponto de vista profissional, a depressão é um tabu? Há algum receio entre as pessoas de falar sobre ela?

Sim, este tema ainda é um tabu para muita gente. Pessoas com depressão podem se sentir acuadas em falar a respeito, seja por medo de serem discriminadas, hostilizadas, sofrerem algum tipo de preconceito ou qualquer outra reação negativa. Esse receio é até compreensível em parte, pois as pessoas tendem a responder de forma preconceituosa devido a desinformação, inclusive algumas induzem as pessoas deprimidas a negligenciarem os sintomas por não saber como estas se sentem de fato. Mas é preciso sim falar sobre o tema, desconstruir conceitos errôneos e quebrar tabus. A depressão não deve ser negligenciada, se você busca um dentista quando sente dor de dente, ou um otorrinolaringologista quando sente dor de ouvido, ou um oftalmologista quando sente dor nos olhos, deve procurar um psicólogo quando tiver sintomas depressivos, pois, como qualquer outra doença, se não for tratada adequadamente pode levar o ser humano a óbito. A depressão é causa mais frequente que leva alguém a cometer suicídio.

  1. O que acontece, fisiologicamente, quando a pessoa desenvolve depressão?

Bem, os sintomas físicos são diversos, algumas pessoas desenvolvem insônia ou dormem excessivamente, sentem cansaço físico sem realizar qualquer atividade, sofrem alterações psicomotoras e/ou cognitivas, entre outros. Nem todo mundo apresenta os mesmos sintomas, algumas pessoas desenvolvem uns enquanto outras não. Por exemplo, enquanto uma apresenta insônia, perda de apetite e cansaço físico, outra pode apresentar sono excessivo, aumento de apetite e cansaço físico. Claro que existem outros sintomas além dos citados, e é importante buscar ajuda profissional ao aparecer qualquer problema de ordem emocional, psicológica, entre outras.

     5. As pessoas têm se mobilizado muito com um movimento do tipo “conte comigo”, no qual se engajam para oferecer conselhos e apoio a pessoas com doenças psicológicas, como a depressão. Mas outras pessoas discordam, apontando que pessoas leigas podem acabar por agravar o estado do amigo/conhecido. Há alguma coerência neste comentário? Até que ponto alguém pode colaborar na recuperação de um depressivo?

As pessoas tendem a imaginar que o trabalho do psicólogo é uma mera conversa, que se baseia em dar conselhos, assim como funciona em uma relação de amizade, mas não é exatamente assim que funciona. A escuta de fato é nosso instrumento de trabalho, mas o que diferencia a escuta de um psicólogo da escuta de um amigo é a ciência. Passamos no mínimo cinco anos estudando para lidar com problemas de ordem emocional e psicológica, estudamos métodos, técnicas, teóricos, abordagens entre outras coisas. Quando alguém que sem preparo se dispõe a ajudar, seja por qual motivo for, pode sim agravar uma situação que por si já é delicada. Pessoas sem domínio no tema geralmente são direcionadas a emitir opiniões generalizantes ou sem qualquer conexão com o assunto, como “tente não ficar assim”, “reza que passa!”, “existem pessoas com problemas piores, você não deveria se sentir assim” ou qualquer coisa do tipo. Quando alguém emite esse tipo de opinião para uma pessoa com depressão, ela pode estar gerando nesta pessoa (deprimida) um sentimento de incompreensão e isso pode fazer com que ela queira falar cada vez menos sobre o assunto para poder evitar esse tipo de situação e, consequentemente se sentir pior, pois a comunicação, a expressão com o mundo é um dos principais recursos que alguém com depressão tem para lidar com a mesma. Veja bem, não digo que ninguém deva se negar a ajudar alguém, mas que tome bastante cuidado ao tentar fazê-lo, busque se informar, ler sobre o tema, ler relatos, ouça o que ela tem a dizer sem julgamentos. A principal dica é, busque junto a esta pessoa a ajuda de um profissional, tente motivá-la a fazer terapia, tente motivá-la a fazer atividades que causam prazer e acompanhe-a se preciso for. Ajudar alguém com depressão não é tão simples quanto colocar um “conte comigo” nas redes sociais e dizer frases de efeito quando estas o procuram, requer muito mais atenção, empatia e cuidado com o próximo. E mais uma vez reitero, busque a ajuda de um profissional, seja através de plano de saúde, clínica particular ou serviço público.

Psicólogo clínico Franselmo Júnior
Psicólogo clínico Franselmo Júnior

Campanha Janeiro Branco                     

Pensando em promover a saúde mental e tentar combater o progresso das doenças psicológicas no Brasil, incluindo a depressão, um grupo de psicólogos de Uberlândia desenvolveu em 2014 a campanha Janeiro Branco, que tem como objetivo chamar a atenção de toda a população mundial para questões relacionadas à saúde mental e promover a conscientização das pessoas sobre a importância de refletir sobre sua saúde mental/saúde emocional, sobre condições emocionais, sobre sua qualidade de vida e sobre a qualidade emocional de suas relações.

O ano de 2017 marca a 4ª edição da campanha, que atualmente tem adesão também de psiquiatras, médicos em geral, enfermeiros, entre outros profissionais da área da saúde.