Home Polícia Três anos após morte da menina Ana Clara, mãe diz que perdoou os assassinos

Três anos após morte da menina Ana Clara, mãe diz que perdoou os assassinos

Três anos após morte da menina Ana Clara, mãe diz que perdoou os assassinos

No dia 6 de janeiro de 2014, a família Santos Sousa sofreu uma perda jamais imaginada. A menina Ana Clara Santos Sousa, de 6 anos, que teve 95% do corpo queimado em ataque a um ônibus em São Luís, morreu às 6h45 daquela segunda-feira, após sobreviver, por três dias, a um ataque a ônibus sofrido na sexta. Ana Clara estava com a mãe e a irmã, na Vila Sarney, quando o veículo foi invadido e incendiado por homens armados.

Em entrevista ao MA10, a mãe da criança, Juliane Carvalho, de 24 anos, se emocionou ao lembrar da filha e do período de dor que marcou os últimos três anos. “Naquele dia um pedaço da minha carne foi arrancado”, conta. “Foi aberta uma ferida na minha família, um período de dor incontrolável. Era a minha filhinha. A gente sempre prefere morrer no lugar de um filho”, lamenta.

A mãe conta que, no momento do ataque, implorou para que a filha fosse poupada. “Eu gritava para que ele não jogasse combustível nas meninas, mas não adiantou”, revela.

Juliane também teve 40% do corpo queimado, além do trauma irreparável trazido pela perda da filha.

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DOR

A mãe de Ana Clara afirma que precisou se desfazer de brinquedos e pertences da filha poucos meses após sua morte. “Algumas pessoas conseguem tirar consolo desses pertences de pessoas amadas que se foram, mas eu só conseguia sentir dor e sofrimento”, explica.

Ela lembra que a filha era uma menina alegre, que gostava de brincar com os batons da tia e se vestir de princesa. No domingo (5), ao saber da morte de Ana Clara, o bisavô paterno, de 81 anos, sofreu um infarto e morreu.

Com depressão, Juliane encontrou apoio nos familiares que, após a tragédia, se uniram. “Nossa família ficou mais unida depois do que aconteceu. Passamos a valorizar mais os momentos juntos, pois percebemos que eu também poderia ter morrido”, conta.

Além de Juliane e de Ana Clara, também foram vítimas dos ataques a ônibus ocorridos em São Luís, no dia 3 de janeiro, a pequena Lorrane Beatriz – irmã de Ana Clara, que teve 20% do corpo queimado e obteve alta hospitalar no dia 15 de janeiro – o entregador de frangos Márcio da Cruz, de 37 anos, que teve 72% do corpo queimado e foi transferido para Goiás, e a operadora de caixa Abiancy Silva, de 35 anos, que teve 10% do corpo queimado no ataque, e teve alta hospitalar no dia 19.

Familiares lamentam morte da menina Ana Clara
Familiares lamentam morte da menina Ana Clara

ATAQUE

Na sexta à noite, Juliane voltava com as filhas para a casa de sua mãe, onde todas moravam. Ela havia ido visitar o namorado, pai da caçula.

Cinco homens armados invadiram o ônibus. Enquanto um ordenava que todos descessem, um deles começou a jogar combustível diretamente nas pessoas, inclusive nela e nas filhas.

Em seguida, os homens atearam fogo ao veículo. Juliane deitou-se sobre a bebê para protegê-la e segurou na mão de Ana Clara, mas a menina se desgarrou e tentou sair, passando pela porta da frente do ônibus, que já estava em chamas. O fogo rapidamente se espalhou pelo corpo da menina.

PERDÃO

Para a mãe da criança, que viu de perto os assassinos de sua filha incendiarem o ônibus, não lhe cabe julgar as ações dos criminosos. “Quem sou eu para julgar? Sou só um ser humano. Eu os perdoo, mas quem deve perdoá-los de verdade é Deus, se eles se arrependerem”.

Juliane diz que prefere não saber o que aconteceu com os homens após o crime. “No ano passado eu tive uma audiência para depor sobre esse caso, mas depois disso não me interessa saber o que foi feito deles. Eu sofro mais”, explica.

VIOLÊNCIA

De acordo com a polícia, o ataque foi uma reação de facções criminosas após ocupação da Tropa de Choque da Polícia Militar no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Ao todo, quatro ônibus foram incendiados e duas delegacias alvejadas. Além de Juliane e Ana Clara, outras três pessoas sofreram queimaduras.

LOCAIS DE ATAQUES A ÔNIBUS E A DELEGACIA EM SÃO LUÍS (MA) EM 3.JAN.2014

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