A arte criadora das mãos de Admée Duailibe

Raíza Carvalho

“Admée”, do francês, admirada e amada, é o nome de batismo de Admée Belo Rodrigues Duailibe. Com 87 anos, a culinarista nascida no interior do Rio de Janeiro, faz história no Maranhão que lhe abriga desde a infância. Com uma vitalidade de poucos, Admée é autora de diversos livros de culinária, fundadora do curso de Gastronomia da Universidade CEUMA, pós-graduada em Consultoria Turística, presidente da Sociedade Beneficente Feminina Libanesa, devota de Santa Terezinha, mãe de 8 filhos, avó de 18 netos, bisavó de 16 netos e trisavó de um. Residente de uma das áreas mais coloridas durante as festas típicas, Admée mora na Rua do Passeio, no coração da Madre Deus e recebe os brincantes de carnaval e São João de portas abertas.

“Amo festas, amo viver”, diz a matriarca que já foi tema de samba-enredo na Favela do Samba e desfilou como grande homenageada da escola em 2005. A história desta mulher que leva a admiração no nome começou no ano de 1930, na pequena cidade de Rio Bonito, no Rio de Janeiro. Com pais maranhenses, eles se mudaram de volta para o Maranhão quando Admée tinha apenas cinco anos. “Fui criada para o lar”, ela conta, sem qualquer vergonha. “Minha mãe colocava uma filha na cozinha a cada semana, eu fui desenvolvendo e sempre gostei muito. Uma irmã pedia para que eu ficasse na cozinha quando era sua semana e ela limparia a casa por mim”, relata. Os bordados e tapeçarias também começaram a ser desenvolvidos na infância de uma mulher que ama trabalhos manuais.

Antônio e Admée Duailibe

Quando criança, Admée estudou somente até o quarto ano do ensino fundamental. Aos dezoito, quando voltava do bairro Anil de São Luís em uma bicicleta, caiu do veículo. Quem lhe socorreu foi o médico recém-formado Antônio Salim Duailibe, que cuidou de seu joelho e arranjou mil desculpas para voltar a vê-la. Ele se apaixonara por ela. O namorico rendeu casamento e também a frutífera amizade de Admée com sua sogra, muito libanesa, Linda Duailibe. Linda era uma mulher tradicional e lhe ensinou o melhor da culinária libanesa, que se tornaria uma especialidade de Admée mais tarde. Com o conhecimento aprofundado por livros, Admée viria a criar suas próprias receitas dentro desta ramificação da culinária árabe.

Aos 72 anos, o aspecto empreendedor da culinarista a levou a encarar a universidade. Com muita coragem e vontade, Admée cursou Turismo e Hotelaria e se formou como uma das primeiras alunas da classe. Não conformada com a graduação, ela se pós-graduou em Consultoria Turística e foi uma das fundadoras do curso de gastronomia da Universidade Ceuma, onde foi professora.

Admée & Cozinha – um laço de amor 

O gosto pela culinária iniciado na infância foi recheado por pitadas de curiosidade. “Eu inventei muitas receitas! Morava em uma casa que tinha um mamoeiro e eu tirava o mamão verde e fazia pratos a partir dele, fazia guizado, todo mundo adorava”, contou ela.  Após o casamento, ainda muito jovem e já cozinheira de mão cheia, Admée tornou-se professora em um Centro de Treinamento da tradicional rede de Supermercados Lusitana, que se localizava na Rua Grande e onde muitas mulheres aprenderam a cozinhar.  A cozinheira deu aula para figuras conhecidas na cidade, noivas que se preparavam para o casamento (e que tinham que aprender a cozinhar para seus maridos), empregadas domésticas que iam ser melhor preparadas e tantas outras. A fama foi se estendendo de tal forma que Admée chegou a apresentar um programa de TV de culinária e, posteriormente, encantou figuras como a apresentadora Ana Maria Braga.  Enquanto realizava uma gravação na cidade, a loira não deixou Admée ficar somente como espectadora e a chamou para ficar em seu lado. “Ela disse que eu era como ela e quando as alunas tivessem dúvidas era para me consultar também”, conta ela, orgulhosa.

Autora de quatro livros, o primeiro deles foi ideia e edição da Lusitana, com várias receitas da cozinheira e fotos do renomado Edgar Rocha. Pouco depois, fundou a escola Cozinharte, localizada também na Madre Deus, que esteve em funcionamento por mais de 30 anos  e existe até os dias de hoje. Das várias obras, o livro “Receitas Deliciosas” foi um dos mais famosos, onde Admée ensina desde o ABC para quem não entende nada de cozinha, até receitas criativas para quem deseja experimentar.

Livros de Admée Duailibe trazem receitas libanesas e iniciação para os iniciantes da cozinha. Foto: Raíza Carvalho 

Sociedade Beneficente Feminina Libanesa

O trabalho beneficente também é algo muito presente na vida de Admée. Iniciada pela sogra da culinarista, a Sociedade Beneficente Feminina Libanesa foi iniciada por várias senhoras descendentes de libaneses que se juntaram para fazer trabalhos filantrópicos. Antes de seu falecimento, Linda Duailibe passou a presidência da organização para Admée, que continua à frente dos trabalhos há cinquenta anos.  A profissional também integrou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e foi a responsável por fundar a Sociedade Pestalozzi no Maranhão, que também trabalha com crianças especiais.

Admée & Família – paixão escancarada 

Admée e seus filhos.

A culinarista foi a primogênita de seus pais, que tiveram dez filhos. Junto com sua mãe, ela foi responsável também pela criação dos irmãos. Sua irmã Sônia, que nasceu dez anos depois, tem a ela o amor e admiração de uma filha. “Tudo o que eu tenho na vida hoje eu devo a Admée, é a irmã mais maravilhosa da família. Antes de morrer, meu pai lhe disse ‘você vai ficar responsável pela sua mãe e por todos os seus irmãos’ e também um segredo que ela não contou para ninguém até hoje. Quando eu precisei de emprego, a Admée gastou o salto inteiro de um sapato indo de cara limpa de porta em porta sem conhecer ninguém no Rio de Janeiro. Nós somos apaixonados por ela”, contou Sônia Miranda, que se emociona ao falar da irmã.

Admée é mãe de Maria Cândida, Antônio Filho, Sonia Elizabeth, Jorge Luis, Marco Aurélio, Henrique Augusto, Francisco José e Maria Teresa e mais tantas outras crianças abraçadas em seus projetos sociais. Apaixonada por seus tantos filhos, o amor é evidente e recíproco. Para o cantor Marco Duailibe, sua mãe é um exemplo em muitos aspectos. “Mamãe tem sido um exemplo de dedicação à família, um exemplo de mulher solidária, de mulher próxima aos filhos e também acolhedora de crias de outras mães, com os projetos sociais.  Além disso, é uma mulher de muitos dotes, sempre fez tapeçaria, pintura em porcelana, bordados e, especialmente, o trabalho com a culinária”, comentou o filho, admirado.

 

Os irmãos da culinarista.
O filho Antonio Salim Duailibe Filho e esposa Luziane (foto à esquerda) e Admée aos 41 anos (foto à direita).

 

Pintura em porcelana feita por Admée. Foto: Raíza Carvalho
Admée e sua irmã, Sônia Miranda. Foto: Raíza Carvalho